sexta-feira, agosto 14, 2009

TEMPOS VELOZES

O mundo está mudando. Mas a novidade não é a mudança do mundo, porque o mundo sempre mudou. A novidade é a velocidade da mudança. Nunca em toda a história humana se mudou com tanta velocidade. Aliás, a velocidade é tamanha que mudou a nossa noção de tempo. Cada dia você levanta mais cedo e vai deitar-se mais tarde. Sempre com a sensação de que deveria estar mais tempo acordado. Parece que é preciso estar o tempo todo em estado de vigília.
Velocidade, mudança, alteração – tudo é fast. Fast-food, drive-thru, lava-rápido. Você lavaria seu carro em um lava-lerdo? Por que não? Onde está aquele ditado que diz que “a pressa é inimiga da perfeição”? E aquele que diz que “devagar se vai ao longe”?
A velocidade é tanta que mudou a idéia de geração. Há vinte anos, choque de gerações era entre pais e filhos. Aliás, considerava-se geração um tempo de 25 anos, porque supostamente por volta dessa idade a pessoa teria um descendente e aí viria uma outra geração. Hoje, choque de gerações é imediato. Um jovem de 28 anos é considerado ultrapassado pela moça de 26 anos e ambos são vistos como ultrapassados pelo rapaz de 22. Eles não cortam o cabelo do mesmo jeito, não apreciam o mesmo gênero musical e não usam o mesmo tipo de roupa.
Quando criança, eu usava o termo “antigamente” para me referir a gregos e romanos. Já esses jovens falam “antigamente” em relação a fatos que não ultrapassam duas décadas. E nos inquirem:
- É verdade que antigamente não tinha controle remoto?
- É verdade.
- Então, antigamente era preciso levantar para mudar de canal?
- Sim.
Até a maneira de disputar uma partida de futebol mudou. Nos anos 1970, um jogador de futebol corria, por partida, seis quilômetros em média. Hoje, estatística refeita, um jogador percorre, em média, o equivalente a 13 quilômetros por jogo. Não mudou o tamanho do campo, nem a duração da partida e tampouco o número de jogadores. O que mudou? A velocidade do jogo, o ritmo e a estratégia.
Algo similar ocorre no mundo das empresas. Mudou o jogo, mudou a estratégia. E tem gente que acha que dá para fazer do mesmo jeito que já fazia antes. Os cenários são turbulentos, as condições se alteram e as mudanças são muito velozes. A coisa mais perigosa num mundo que muda velozmente é achar que já se chegou aonde podia. Ou seja, sossegar. A pior coisa para construir futuro é achar que o passado já sustenta. Sabe qual é o maior pecado para quem quer criar futuro? Achar que já está pronto, achar que já sabe, achar que já ficou bom. Cuidado! O seu cliente, o seu consumidor tem de ficar satisfeito, mas você jamais pode ficar satisfeito.
Nós, brasileiros, temos um vício, que é muito perigoso, de nos contentar muitas vezes com o possível, em vez de procurarmos o melhor. Por exemplo, você chega ao mecânico: “O meu carro está com um problema, estou ouvindo um barulho”. Ele fala: “Vou fazer o possível”. Você fica desanimado, mas aceita.
Nessas horas, temos de aprender com os norte-americanos. Não devemos aprender tudo com eles, nem devemos rejeitar tudo o que vem deles. Mas quando se pede algo a um norte-americano, ele diz: I will do my best, ou “Vou fazer o meu melhor”. Não é uma diferença de idioma, é uma diferença de atitude. Há uma diferença estupenda entre o possível e o melhor. Num mundo competitivo, para caminhar para a excelência é preciso fazer o melhor, em vez de contentar-se com o possível. Fazer o possível é o óbvio. Agora, fazer o melhor é exatamente aquilo que cria a diferença. Se o mecânico responde: “Vou fazer o meu melhor”, você já se anima, confia.
Imagine você, submetido a uma cirurgia de extirpação do apêndice, e deitado, olhando para o médico a caminho do centro cirúrgico:
- Doutor, vai dar certo minha cirurgia?
- Vou fazer o possível.
Nessa hora você quase falece. Agora pense em como se sentiria se a resposta fosse ligeiramente diferente:
- Doutor, vai dar tudo certo?
- Vou fazer o meu melhor.
Já imaginou? E essa busca pelo melhor exige humildade e exige que coloquemos em dúvida as práticas que nós já tínhamos.
Porque se as práticas que tínhamos e temos no dia-a-dia fossem suficientes, já estaríamos melhor.


CORTELLA, Mário Sérgio. Qual é a tua obra? : inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 80- 83.

4 comentários:

Karinanne disse...

Professor!

Adorei o texto. Realmente as gerações mudaram, pois o termo "antigamente" já está se afastando da Antiguidade e aproximando-se do século XXI.

E o diálogo da cirurgia foi muito cômico, mas é a pura verdade.

Beijos!

Yumi disse...

Professor, gostei demais do texto. Fica mais que claro que o ser humano foi se adaptando a tanta correria que os Jack Bauer's e Chuck Norris' da atualidade parecem insuficientes.
Com relação a parte do tratamento do que é "antigo" ou o que é "novo", parece que essa juventude criada a base de tecnologia, conversas abertas e acesso ao mundo todo, fez uma grande transferência de valores. Um rapaz ou uma moça de mais de vinte anos já é considerado um "tiozinho". O que será então de um jovem cidadão de 50 anos?

Complicado né? rs
Beijão

duh_irdo disse...

a especialização do trabalho - e mesmo dos detalhes ao redor do homem - não contribui para a criação das prisões mencionadas nos posts abaixo?
uma vez que o homem nasce no meio da tecnologia, esta se torna sua prisão, não?

Anônimo disse...

Meus parabéns professor, o texto foi comentado hoje em sala de aula (17/08), porém lendo ele ainda ampliei mais o meu conhecimento e entendi realmente o que o senhor queria dizer na aula !

Estou de pleno acordo com TUDO que o texto diz, é exatamente isso que acontece em praticamente todas as profissões, todos os hobbies, enfim, praticamente tudo na vida está se adaptando aos segundos pouco a pouco.

Abraços,
Adriano França do Amaral