Sábado, Março 03, 2012

A Epistemologia Social de Marx: O Grande Diagnóstico do Século XX


“Proletários de todas as nações, uni-vos!” (Karl Marx)

“A dramática crise financeira que experimentamos nos últimos três anos é apenas um aspecto da trifurcada destrutibilidade do sistema de capital. Em primeiro lugar na esfera militar, com as intermináveis guerras do capital desde o começo do imperialismo monopolista nas décadas do século XIX”
(István Mészáros – filósofo socialista ainda vivo)

O filósofo alemão Karl Marx está encravado na história do pensamento social e econômico por ter feito uma espécie de diagnóstico da modernidade ao prever revoluções que dariam origem à redoma do contexto político e social do século XX. Ao separar capital de capitalismo e fabricar a vender a argamassa e os tijolos do sistema socialista, Marx inaugurou uma nova era tanto no mundo ocidental quanto no oriental. E se todas as nações que adotaram o socialismo mergulharam na decadência é porque, segundo o filósofo húngaro Stván Mészáros, mesmo sabendo se livrar do capitalismo, não o fizeram em relação ao capital...
 O diagnóstico marxista inicia-se, ao certo, com uma carta escrita a um célebre presidente estadunidense. Marx, em meados do século XIX, escreveu uma carta de elogio a Abraham Lincoln quando este foi eleito pela segunda vez. Nesta epístola Marx afirmou que, se a primeira eleição de Lincoln tinha como texto subliminar o combate ao escravismo, agora em sua reeleição ele de fato iria enterrar os escravistas de uma vez por todas. Mas o ponto central, que vai interessar a todo o pensamento social, político e econômico herdado de Marx, encontra-se muito além desse mero elogio. Marx afirma no corpo textual que os trabalhadores europeus estavam instintivamente percebendo, se é que já não tinham percebido, que para onde caminhassem os trabalhadores dos Estados Unidos da América caminharia todo o movimento operário europeu. Foi um tiro certeiro.
            De fato ele estava apostando nos princípios de sua teoria: o pólo mais desenvolvido, o mais esperançoso, onde as forças produtivas estão no ápice do desenvolvimento ou na iminência de se desenvolverem, carrega os outros pólos; e onde as forças produtivas já se desenvolveram bastante, onde as forças de produção as estão enterrando, o progresso atrai o não-progresso.
            Marx não estava considerando que os Estados Unidos da América seriam extremamente mais avançados econômica e tecnologicamente, embora o estivesse dizendo, porém afirmava, principalmente, que os Estados Unidos seriam o palco das transformações que moveriam todo o mundo.  E não há dúvida de que Marx acertou quando afirmou que toda nossa história atualmente, no século XXI, passa por Nova Iorque.
            Este princípio de que o poder mais desenvolvido do capitalismo move os pólos menos desenvolvidos, indicando que o filósofo, o cientista social, o geógrafo, o historiador e o economista devem olhar para o pólo mais desenvolvido do sistema capitalista era um dos princípios da sua Teoria da História, a qual concluiu observando o período moderno e as suas revoluções.
            Outro princípio básico de sua teoria era a respeito das questões ideológicas. Marx era da tradição platônica, em que os filósofos dividem o real do aparente. O real e o aparente ganham na época de Marx, a partir do filósofo inglês Francis Bacon, a ideia de real e ideológico, sendo que o ideológico é o aparente necessário: aquilo que se observa e que engana (por não ser o real), mas do qual não se pode escapar, salientando-se que ele faz parte da vida e, principalmente, da visão, tornando-a necessariamente deturpada. Bacon dizia que isso representaria os ídolos da tribo no início da modernidade, e depois o filósofo alemão Immanuel Kant vai chamar atenção para o mundo das idéias que definirão, de certo modo, alguma coisa que nos obriga a admitir que o que vemos não é de fato o real. Esses pensadores então começam a lapidar a partir de Platão um pensamento que desembocará em Marx e na dicotomia do real e do ideológico: estamos no mundo, fitamos a realidade e a vemos; porém, vemos também muitas coisas que são falsas consciências da realidade. Sendo assim, o papel de Marx é notar, estando nesse mundo e entendendo que ele mesmo está sob o efeito desta viseira ideológica e pode não enxergar a realidade além dos outros, mas pode apontar que outra sociedade tem o poder de nos tirar a viseira, outra sociedade que faça com que desapareçam essas condições ideológicas – nas palavras de Bacon, os ídolos da tribo. Marx, portanto, aposta que esses ídolos da tribo, essas visões ideológicas não estão somente na nossa consciência, mas também estão no âmbito social. Ou seja, e o que é mais surpreendente Marx passa a construir uma teoria do conhecimento social, uma epistemologia social, na qual os limites da razão são dados pela história, pelas questões que estamos vivendo. Essa é a grande força do pensamento marxista influenciado por Platão. Contudo, essas mesmas concepções tornam-se para o próprio Marx um calcanhar de Aquiles. Todavia, para que não se alargue tanto esse texto, discutirei num outro texto porque essa noção de epistemologia social se torna malogra ao próprio Marx.

                                                                           Eliakim Ferreira Oliveira
                                                                       São Paulo, 2 de Março de 2012

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

Direitos humanos e compromisso com os povos indígenas - Rigoberta Menchú.

Neste vídeo a líder indígena guatemalteca fala de sua vida  e expõe seu pensamento sobre o legado dos povos originárias e sua contribuição para o mundo. Rigoberta após sobreviver a um massacre em seu país, tornou-se uma reconhecida ativista dos Direitos Humanos. O vídeo mostra como ela entende a religiosidade das populações nativas, vinculadas à terra que  privilegiam o equilíbrio e o que ela pensa sobre o cristianismo, uma religião com forte imperativo da justiça e da ética, algo que a seu ver, muitas vezes se afasta da vida da cotidiana das pessoas e só restam os ícones e palavras vazias. A autora (e outros autores comentam sua obra, A neta dos maias, na qual ela discute sua identidade intercultural sobre o  futuro destes povos e da humanidade, lembrando que a palavra para o futuro deve ser tolerância.


               

               

               

               

               

               

               

             

A relação entre o Homem e a Natureza: perspectiva do trabalho e da cultura. A relação entre o Homem e a Natureza: perspectiva do trabalho e da cultura.

O trabalho é a atividade humana por excelência, pela qual o homem transforma o mundo e a  si mesmo. Por isso, se num primeiro momento a natureza se apresenta como destino, é o trabalho que surge como condição de transcendência e liberdade, a não ser nos sistemas onde persistem formas de exploração que levam à alienação.


O trabalho

            Seria pouco afirmar  que a diferença entre homem e animal estaria no fato de o homem ser um animal que pensa e fala. De fato, a linguagem humana permite a melhor ação transformadora do homem sobre o mundo, e com isso completamos a distinção: o homem é um ser que trabalha e produz o mundo e a si mesmo.  O animal não produz a sua existência, mas apenas a conserva agindo instintivamente ou, quando se trata de animais de maior complexidade orgânica, "resolvendo" problemas de maneira inteligente. Esses atos visa defesa, a procura de alimentos e de abrigo, e não devemos pensar que o castor, ao construir o dique, e o joão-de-barro, a sua casinha, estejam "trabalhando". Se o trabalho é a ação transformadora da realidade, na verdade o animal não trabalha, mesmo quando cria resulta dos materiais com essa atividade, pois sua ação não é deliberada, intencional.
           
            Vejamos como Marx compreende o trabalho, desvelando a relação homem—natureza:

O trabalho é, em primeiro lugar, um processo de que participam igualmente o homem e a natureza, e no qual o homem espontaneamente inicia, regula e controla as relações materiais entre si próprio e a natureza. Ele se opõe à natureza como uma de suas próprias forças, pondo em movimento braços e pernas, as forças naturais de seu corpo, a fim de apropriar-se das produções da natureza de forma ajustada a suas próprias necessidades. Pois, atuando assim sobre o mundo exterior e modificando-o, ao mesmo tempo ele modifica a sua própria natureza. Ele desenvolve seus poderes inativos e compele-os a agir em obediência à sua própria autoridade. Não estamos lidando agora com aquelas formas primitivas de trabalho que nos recordam apenas o mero animal. Um intervalo de tempo imensurável separa o estado de coisas em que o homem leva a força de seu trabalho humano ainda se encontrava em sua etapa instintiva inicial. Pressupomos o trabalho em uma forma que caracteriza como exclusivamente humano. Uma aranha leva a cabo operações que lembram as de um tecelão, e uma abelha deixa envergonhados muitos arquitetos na construção de suas colméias. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor das abelhas é que o arquiteto ergue a construção em sua mente antes de a erguer na realidade.


            O trabalho humano é a ação dirigida por finalidades conscientes, a resposta aos desafios da natureza na luta pela sobrevivência. Desafios da natureza na luta pela sobrevivência. Ao reproduzir técnicas que outros homens já usaram e ao inventar outras novas, a ação humana se torna fonte de idéias e ao mesmo tempo uma experiência propriamente dita.
     
            O trabalho, ao mesmo tempo que transforma a natureza, adaptando-a às necessidades humanas, altera o próprio homem, desenvolvendo suas faculdades. Isso significa que, pelo trabalho, o homem se autoproduz. Enquanto o animal permanece sempre o mesmo na sua essência, já que repete os gestos comuns à espécie, o homem muda as maneiras pelas quais age sobre o mundo, estabelecendo              relações também mutáveis, que por sua vez alteram sua maneira de perceber, de pensar e  de sentir.

            Por ser uma atividade relacional, o trabalho, além de desenvolver habilidades,permite que a convivência não só facilite a aprendizagem e o aperfeiçoamento dos  instrumentos, mas também enriqueça a afetividade resultante do relacionamento humano:experimentando emoções de expectativa, desejo, prazer, medo, inveja, o homem aprende a conhecer a natureza, as pessoas e a si mesmo.

            O trabalho é a atividade humana por excelência, pela qual o homem intervém na  natureza e em si mesmo. O trabalho é condição de transcendência e, portanto, é expressão da liberdade.

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012

SACERDOTES, GUERREIROS E TRABALHADORES

O feudalismo foi a organização política, social e econômica que prevaleceu na Europa ocidental durante a Idade Média (séculos V–XV). A principal riqueza consistia na posse e exploração da terra. O poder era local e estava distribuído entre os suseranos, hierarquicamente dispostos, aos quais os vassalos deviam lealdade. A economia era predominantemente agrária e as atividades comerciais limitadas, devido ao lento processo de ruralização. A unidade de produção básica era o senhorio rural, cujas terras estavam divididas em reserva senhorial, terras comunais e manso servil. A forma de trabalho característica foi a servidão, marcada pelas obrigações devidas pelos camponeses semi-livres ao senhor feudal em troca de proteção. A sociedade era estamental, com pouca mobilidade social. O papado ficava acima da sociedade e era o poder máximo, tanto religioso como civil. Com o passar do tempo, o feudalismo foi perdendo a importância e as cidades e o comércio ressurgiram. Leo Huberman em seu livro: A História da Riqueza do Homem explica de forma clara e percuciente o feudalismo. Para ter acesso ao texto CLIQUE AQUI.


A Baixa Idade Média (séculos X-XV) é o período da história européia em que se verificou o declínio do sistema feudal. Nessa fase, ocorreram profundas transformações de caráter sócio-econômico (renascimento comercial e urbano e formação da burguesia), político (centralização do poder) e cultural (Renascimento e Reforma Prostestante) que contribuíram para a formação de um novo modo de produção: o capitalismo. APRESENTAÇÃO

Sábado, Fevereiro 18, 2012

HISTÓRIA MODERNA

CURSO: História - DISCIPLINA: História Moderna 
PROFESSOR RESPONSÁVEL: Prof. Jorge Miklos
CARGA HORÁRIA:  80 horas 
PERÍODO LETIVO:  Primeiro Semestre - ANO: 2012


15/02
APRESENTAÇÃO
22/02
A TRANSIÇÃO DO FEUDALISMO AO CAPITALISMO

Texto Básico


29/02
O RENASCIMENTO I - AS CAUSAS DA RENASCENÇA

Texto Básico



07/03
O RENASCIMENTO II - A CULTURA ARTÍSTICA DA RENASCENÇA.

Texto Básico


14/03
O RENASCIMENTO III: A FILOSOFIA RENASCENTISTA

 Texto Básico


21/03
AS REFORMAS RELIGIOSAS I – AS CAUSAS DA REFORMA

Texto Básico

28/03
Prova Mensal
04/04
AS REFORMAS RELIGIOSAS II: Filme Lutero

Texto Básico

FEBVRE, Lucien.  Martinho Lutero - Um Destino. Lisboa, Texto Editores, 2009.

11/04
AS REFORMAS RELIGIOSAS – A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO

Texto Básico


18/04
LINHAGENS DO ESTADO ABSOLUTISTA - AS ORIGENS E O DESENVOLVIMENTO DO ESTADO MODERNO NO OCIDENTE Texto Básico


25/04
LINHAGENS DO ESTADO ABSOLUTISTA: O CARÁTER DE CLASSE DO ESTADO ABSOLUTISTA – O DEBATE HISTORIOGRÁFICO E A VISÃO DE PERRY ANDERSON

Texto Básico

02/05
LINHAGENS DO ESTADO ABSOLUTISTA: A CONCEPÇÃO DO PODER POLÍTICO EM MAQUIAVEL

Texto Básico


09/05
O MERCANTILISMO: A ÉPOCA, AS IDEIAS E AS PRÁTICAS MERCANTILISTAS

Texto Básico


16/05
O MERCANTILISMO: O ANTIGO SISTEMA COLONIAL

Texto Básico

23/05
A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA

Texto Básico


30/05
06/06
Prova Bimestral

Domingo, Fevereiro 12, 2012

HISTÓRIA ANTIGA - ORIENTE


CURSO: História - DISCIPLINA: Antiguidade Oriental
PROFESSOR RESPONSÁVEL: Prof. Jorge Miklos
CARGA HORÁRIA:  80 horas
PERÍODO LETIVO:  Primeiro Semestre - ANO: 2012


PROGRAMAÇÃO DAS AULAS


BIBLIOGRAFIA BÁSICA

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Atual, 1994 (Discutindo a História). Disponível em:


17/02
Apresentação
24/02
História Natural e História Social


02/03
Filme: A Guerra do Fogo



09/03
Caçadores e Coletores

16/03
Agricultores e Criadores.


23/03
E o homem criou as cidades

30/03
Prova Mensal
06/04
Feriado Religioso
13/04
A Mesopotâmia

20/04
A Mesopotâmia

27/04
A  Civilização do Nilo


04/05
A Civilização do Nilo

Vídeo: Egito Anos de Glória
11/05
Os Hebreus

18/05
Os Hebreus
25/05
Revisão
01/06
Prova Bimestral



Quarta-feira, Novembro 30, 2011

TV APARECIDA

No dia 14 de Outubro participei de um programa na TV Aparecida chamado ETC.....
A conversa foi boa. Quem tiver paciência... abaixo os vídeos

PRIMEIRO BLOCO










SEGUNDO BLOCO





TERCEIRO BLOCO


Domingo, Outubro 30, 2011

O Papel da Religião na sociedade: “Persépolis”


“A religião é o suspiro da criança acabrunhada, o coração do mundo sem coração, assim como também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo.”
(Karl Marx)

“A melhor religião é a mais tolerante.”
(Émile de Girardin – 1802-1881 -, jornalista, político e publicitário francês)

A minha Religião é o Novo. 
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol, 
estas invenções habituais: o Mar. 
Ainda: 
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que 
ontem. 
Deus como habitante único. 
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante 
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso 
Frasco). 
Dele também se podia dizer, como homenagem: 
Hóspede discreto. 
Ou mais pomposamente: 
O Enorme Hóspede discreto. 
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou 
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que 
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele: 
em todo o lado é hóspede, 
e em todo o lado é Discreto.

Gonçalo M. Tavares (nasc. 1970), escritor pós-modernista português, in "Investigações. Novalis"

“As revoluções fracassam porque, uma vez que triunfam, os homens deixam tudo nas mãos do novo governo 'revolucionário'... em lugar de fazê-lo eles mesmos”.

(Ricardo Flores Magón – 1874-1922 - , um dos mais notáveis anarquistas mexicanos)

          

Eu quero iniciar a minha análise sobre o papel da religião na sociedade, com enfoque no filme “Persépolis”, partindo do pressuposto que a religião é um sistema, construído com regras, que são geralmente chamadas de dogmas. Segundo Sigmund Freud, sendo ela um remédio ilusório para o desamparo, as atitudes humanas que tem raízes religiosas se dão quando as regras entram no âmbito psíquico, o que seria fundamental para o que os religiosos chamam de “salvação” ou “purificação”; seria esse o objetivo curativo desse “remédio”. Quiçá, a parcela imensa de seres humanos que seguem e aderem a dogmas religiosos e os usam como uma foice para andar por esse imenso canavial chamado existência representam a necessidade do homem, enquanto ser racional, de controlar seus instintos e seus impulsos, estabelecendo para si um código moral com “raízes espirituais”. A pintura “A Criação de Adão”, feita na abóbada da Capela Sistina, ilustra bem essa ideia da relação do homem com as respostas que estão “além do conhecimento possível” e de sua necessidade de encontrar um sentido espiritual e divino para si e para sua existência; quando se quer encontrar um sentido para ser e estar não há apenas a religião como instrumento de compreensão e entendimento – sabemos disso; porém, por algum motivo mais singelo e talvez mais “purificador” para a mente, os seres humanos passaram a utilizá-la desde os tempos mais remotos para esse fim. É realmente uma procura por uma suposta re-ligação (como o temo mesmo sugere) com uma suposta força criadora que carrega a essência para a existência, podendo esta ser antropomórfica, zoomórfica ou apenas uma força imaterial.
            Essa introdução serviu apenas para nos mostrar como a religião se dá no âmbito psíquico. A questão é: ela pode se dar positivamente e negativamente; quando é o segundo caso, quais são as consequências disso para o homem e, subsequentemente, para a sociedade que o representa no campo coletivo. Dessa proposição chegamos às análises do filme “Persépolis”. Um grupo de islâmicos radicais, os xiitas, consegue chegar ao poder na então Pérsia, representando uma esperança para um retorno da liberdade num país que, pelo governo de um ditador “alcunhado” de xá, já há muito desconhecia. Comemora-se a derrocada do xá e a abertura para a liberdade; todavia, os que entram no poder monopolizam fundamentalmente sua moral religiosa, aplicando-a ao sistema político e, consequentemente, coletivizando-a. O resultado são pessoas que já não podem mais utilizar sua faculdade de escolha própria ante atitudes corriqueiras e habituais, mas importantíssimas para o exercício da liberdade, tais como o uso de roupas, poder ir a festas e até realizarem atividades lúdicas; e, pior ainda, não há mais o direito de criticar o governo e nem ter contato com uma cultura alheia, outrora próxima, como a ocidental. E aí surge novamente, como no tema do relato: quais são as consequências negativas que a religião pode ter sobre a sociedade?

                                               Eliakim Ferreira Oliveira, São Paulo, 24/10/11.

Domingo, Outubro 23, 2011

O Conceito de Liberdade esmiuçado no filme “Amistad”

“A liberdade é mais importante que o pão.”
(Nelson Rodrigues)

“Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.”  

Miguel Torga, célebre escritor modernista português, in “Diário XII”

            Não é possível falar sobre liberdade e, mais ainda, discutir o modo como ela aparece no filme “Amistad”, de Steven Spielberg, quando praticamente desconhecemos o conceito. Alisemos, portanto, quais são os “alicerces filosóficos” que sustentam essa palavra. Num primeiro momento, em uma análise de cunho comum, diz-se que liberdade é a capacidade de escolher uma coisa dentre duas ou mais, isto é, poder fazer escolhas durante a existência. O filósofo e religioso francês Jean Buridan (1300-1358), por exemplo, considerava que ser livre é não ter mais propensão a fazer uma do que outra, entre duas alternativas. Eu, por exemplo, tenho duas opções: posso escolher escrever esse relato ou não – tenho liberdade para isso; as consequências da minha escolha já são outros quinhentos...
            Não só conceitualmente, mas quotidianamente também, atribuímos a liberdade ao indivíduo provido de senso racional que é livre. Não se trata da desmembração entre liberdade e homem, mas sim de uma sinergia entre ambos para a auto-afirmação do Ego (eu) e sua existência. E nesse sentido, unimos também a Vontade a Liberdade, pois se observa que o querer ser livre é a força-motriz e, paradoxalmente, o instrumento para a libertação do homem.
            Creio que uma das melhores análises filosóficas sobre o conceito de liberdade que pode ser aplicada ao filme “Amistad” é a do filósofo francês Jean-Paul Sartre, que afirma ser a liberdade a condição ontológica do ser humano. O homem é, antes de tudo, livre. O homem é livre mesmo de uma essência particular, como não o são os objetos do mundo, as coisas. Livre a um ponto tal que pode ser considerada a brecha por onde o Nada encontra seu espaço na ontologia. Ele está, em sua essência humana, fadado a ser livre; ele é, ontologicamente, obrigado a fazer escolhas, obrigado a exercer sua liberdade intrínseca. Eu posso, na condição de ser humano, escolher permanecer preso por grilhões que dilaceram minha carne ou tentar, por meio da minha própria condição física, soltar-me. Sou obrigado a escolher se permaneço num estado ou se mudo para outro. Em vários momentos do filme o personagem principal é obrigado a exercer sua liberdade; comandar uma revolta e mobilizar seus amigos conterrâneos foi um exemplo disso. E os que o seguiram também exerceram sua liberdade, posto que tinham a opção de não fazê-lo. Percebe? É impossível não escolhermos, é impossível não fazermos escolhas.
            Partindo do conceito de Buridan e o estruturando analiticamente com as considerações de Sartre, concluímos que, por existir, somos livres. Eu diria até que nós só existimos por sermos livres. Se podemos escolher, se podemos fazer escolhas, ontologicamente garantimos nossa existência.

                                                                                   Eliakim Ferreira Oliveira, São Paulo, 16/10/11

Segunda-feira, Outubro 10, 2011

Café com leite



Cartum exposto no Salão Internacional do Humor - Piracicaba - SP - Edição  2011

Café com leite

Gabriel George Martins de Oliveira

            As diversas teorias racistas que povoaram a mente de estudiosos dos séculos XIX e XX estabeleceram que a mestiçagem teve papel negativo na formação brasileira. No entanto, intelectuais como Gilberto Freyre e Florestan Fernandes contradizem esse ideário, ainda que discordando em certos aspectos. Assim, ambos propõem fórmulas diferentes para a formação do povo brasileiro.
            A Eugenia e outras propostas racistas taxavam o povo das terras brasileiras como sendo degenerado, decorrência de sua repulsiva miscigenação, como muitos consideravam. O antropólogo Gilberto Freyre foi o pioneiro, a matriz de um pensamento que objetava precisamente o contrário. Freyre via a miscigenação como algo natural, e ainda ousava, acrescentando o conceito de “democracia racial”, no qual há o pleno exercício da liberdade étnica e social dentro de uma sociedade. Para ele, com a abolição da escravidão da escravidão, o Brasil chegou a esse patamar.
É válido dizer, porém, que o 13 de maio representa o dia no qual os escravos negros se viram libertos, mas sem nenhum respaldo para participar da atual sociedade. Esse é o pensamento de Florestan Fernandes, que vislumbra a democracia racial de Freyre como inexistente, tendo em vista a permanência de uma organização social que segregava o negro e o excluía. Enquanto o Governo, durante as festividades, embeleza as cidades de diversos modos a fim de vender sua imagem, um montante de pessoas, não apenas os negros, se refugiam em periferias, fruto daquela longínqua abolição que supostamente libertou os escravos.
Portanto, é insensato afirmar que o Brasil se encontra num atual estado de magnitude e mistura étnica permitida. Há ainda muito preconceito e exploração, como nos tempos de D. Pedro. A solução reside na eliminação das desigualdades sociais, como propõe outro intelectual, Darcy Ribeiro. 

Gabriel George Martins de Oliveira tem 16 anos. Cursa a Segunda Série do Ensino Médio