sábado, março 05, 2011

TER RAZÃO OU SER FELIZ?

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo , o poeta Ferreira Gullar contou a origem de uma de suas frases mais famosas. Disse que, dia desses, discutiu tanto com a sua companheira que uma hora ela se levantou e abandonou o local.
Na opinião do poeta, ele até ganhou a discussão. Ganhou, mas não levou: ficou falando sozinho. E foi aí que ele cunhou a pérola: ‘Não quero ter razão, quero ser feliz’. A genialidade da frase dispensa explicações. Aliás, as frases geniais são geniais justamente porque não precisamos explicá-las.
Podemos, porém, refletir sobre ela. É para isso que servem as frases geniais.
Nós, mortais, não elaboramos pensamentos como Ferreira Gullar, e é por isso que nós somos mortais e o Ferreira Gullar é o Ferreira Gullar. Imagine só soltar uma frase dessas no meio da conversa: é o fim de qualquer discussão, não importa quem está com a razão.
A sociedade chegou a um nível de egocentrismo tão grande, que parece que todo mundo quer ter razão o tempo inteiro. Há muito tempo não ouço alguém dizer ‘puxa, você tem razão, eu estou errado’. Será que ainda há espaço para a humildade nesse reality show que se tornou o mundo? Será que admitir um erro é visto como sinal de fraqueza?
A frase de Gullar chama a atenção justamente porque revela que é fundamental ceder, abrir mão de disputas mesquinhas em nome da felicidade. Não é esse objetivo da vida, ser feliz?
Pode parecer ingenuidade, mas juro que vou pensar duas vezes antes de entrar em uma discussão. Porque a gente sempre sabe como uma discussão começa, mas nunca sabe como ela vai terminar. E se pode terminar mal… para que começar? Já fiz isso tantas vezes, tantos confrontos desnecessários… Quem ganha uma discussão, ganha o quê?
Discutir com quem a gente ama só serve para minar a relação. Não estou pregando a apatia generalizada: é bom ter opiniões, são elas que constroem nossas personalidades. Mas querer impor essas opiniões a alguém tem um preço muito alto, que não acho que vale a pena pagar. Ou vale, para quem estiver disposto a pagá-lo. Infelizmente, não é como checar a etiqueta numa loja de roupas: a gente só sabe quanto a discussão ‘custou’ quando ela termina.
Gullar, eu também não quero ter razão, eu também só quero ser feliz. Pensando bem, ter razão nem é tão bom assim, porque significa que, se você está certo, a pessoa que você ama está errada. E será que é necessário expor o erro do outro de maneira tão evidente? Talvez seja por isso que vemos por aí cada vez mais gente com razão – e infeliz.
E por fim, "ter razão" contraria a atitude filosófica que sempre procuro nutrir. Sócrates não ensinava nada, apenas despertava dúvidas.
De que outra maneira podemos sobreviver nesse mundo tão cheio de certezas senão pelo caminho da reflexão cuja meta não é acabar com sua angústia, mas sim multiplicá-la no contato com a realidade, despertando para a ação transformadora 

4 comentários:

Renato disse...

Olá Jorge, enfim consegui abrir uma conta para poder trocar experiências no seu blog.

Logo, este texto representa muito, principalmente neste momento político, pois ao contrário do descrito, os políticos anseiam e perpetuam uma prática coronelista de poder a todo custo, cerceando pensamentos individuais e da coletividade, preferem pensar na razão partidária e não na felicidade da sociedade. Preferem lutarem e perderem do que reconhecer que o objetivo humano é ser feliz...

Rsrs... desvaneios

Cíntia Dal Bello disse...

Nossa, Jorge, que delícia de post! É isso mesmo! A fórmula da felicidade está em ouvir o outro, compreendê-lo, muitas vezes está em calar... está na sabedoria de ponderar, em ser diplomático. Eu não quero ter razão... quero mais é ser feliz! Excelente!

Chawani disse...

Gostei muito desse post professor! Faz muito sentido *-*

Anônimo disse...

queria ter razão e ser feliz ao mesmo tempo rsrsrsrsrsrs...
será que é possível conseguir tamanha artimanha?
se descobrir a técnica...por favor...me comunique...(estou brincando jorge...você sabe...)